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A cirurgia abdominal consiste na
retirada do duodeno, parte superior do intestino delgado, e na
redução do tempo que o corpo precisa para absorver as calorias
dos alimentos, o que resulta na perda de peso. |
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O duodeno pode ser a causa
da resistência à insulina, causadora do DIABETES. Caso
a hipótese se confirme, realizar um "desvio" gástrico
pode eliminar a resistência à insulina e restabelecer
o balanço normal entre os níveis de insulina e de
açúcar.
Uma das mais fascinantes linhas de tratamento do
diabetes tipo 2 é a intervenção cirúrgica. A operação
para conter o diabetes é diferente de qualquer outra.
Ela não se destina a trocar um órgão que funciona mal
por outro em boas condições, como nos transplantes.
Tampouco é feita para a implantação de um corpo
estranho no organismo, de modo a fazê-lo trabalhar
melhor. A cirurgia do diabetes combina simplicidade e
engenhosidade. Os médicos estão conseguindo, com
pequenas modificações na anatomia do intestino
delgado, regular a produção de insulina no pâncreas e,
com isso, restaurar as taxas de glicemia aos níveis
normais. Em outras palavras, eles conseguem reverter o
diabetes. A cirurgia é fruto de uma constatação nova e
surpreendente: a de que o diabetes é uma disfunção
cujas origens ultrapassam as fronteiras do pâncreas, o
órgão produtor de insulina - hormônio responsável por
retirar as moléculas de glicose da circulação
sanguínea e levá-las para dentro das células, onde são
transformadas em energia. O diabetes surge da falta ou
da ineficiência da insulina, o que leva ao acúmulo de
glicose no sangue. E o que é que o intestino delgado
tem a ver com isso? Tudo.
Com 6,5 metros de comprimento e 4 centímetros de
diâmetro, cheio de dobras e reentrâncias, o intestino
delgado, além de promover a digestão e a absorção dos
alimentos, funciona como uma espécie de fábrica de
incretinas, a família de hormônios capaz de
potencializar a secreção de insulina. Elas ajudam a
baixar as taxas de glicose no sangue, sobretudo depois
das refeições, quando esses níveis tendem a explodir.
A descoberta do papel crucial das incretinas GIP e GLP-1
no controle do diabetes tipo 2 data dos anos 90. Nos
diabéticos, a quantidade de GIP é normal e, não raro,
apresenta-se até aumentada. Sozinha, porém, ela não
consegue estimular o pâncreas a produzir insulina. Já
em relação à GLP-1, o diabético padece de sua falta.
Um doente tende a produzir um décimo do volume de GLP-1
secretado por uma pessoa sadia. O bisturi entra para
corrigir essas falhas e restabelecer a sintonia entre
os hormônios do aparelho digestivo e a insulina.
Para entender exatamente como funciona a cirurgia do
diabetes, é preciso relembrar as aulas de biologia na
escola. O intestino delgado é dividido em três regiões
- duodeno, jejuno e íleo. Durante a digestão, depois
de passar pelo estômago, o alimento chega à primeira
porção do intestino delgado, o duodeno. Nesse momento,
moléculas de GIP saem do duodeno e dirigem-se ao
pâncreas, para estimular a secreção de insulina.
Quando o alimento chega ao íleo, moléculas de GLP-1
são imediatamente despachadas para o pâncreas, onde
potencializam a síntese de insulina. As duas técnicas
cirúrgicas que estão sendo testadas facilitam a ação
das incretinas, encurtando o período de digestão dos
alimentos.
A experiência com um dos métodos foi relatada na
edição de agosto passado da revista Surgical
Endoscopy, da Sociedade Americana de Cirurgiões
Gastrointestinais e Endoscópicos. O autor do artigo é
o cirurgião Áureo Ludovico De Paula, do Hospital de
Especialidades, de Goiânia. Ele é o criador da técnica
de interposição do íleo. Feita por laparoscopia, a
cirurgia consiste em aproximar uma parte do íleo do
estômago, de modo a intensificar a produção de GLP-1.
A operação prevê ainda a redução de 20% do estômago, o
que reduz drasticamente a produção de grelina, o
hormônio do apetite. Isso leva à perda de peso e,
assim, diminui a resistência à insulina. Dos 39
pacientes citados no artigo da revista americana,
quase 90% ficaram completamente livres do diabetes. De
cada dez, três saíram do hospital sem necessidade de
nenhuma medicação antidiabética - uma cura
praticamente instantânea. "Se apenas metade desses
resultados puder ser repetida, teremos uma revolução
no tratamento do diabetes", diz Alfredo Halpern,
endocrinologista, da Universidade de São Paulo. A
cirurgia tem efeito, ainda, sobre uma série de outras
doenças associadas ao diabetes - hipertensão,
colesterol alto e triglicérides em excesso. Há três
semanas, uma equipe de pesquisadores da Escola de
Medicina Mount Sinai, em Nova York, esteve no Brasil
para aprender a técnica criada por De Paula. Eles vão
começar a testá-la nos Estados Unidos. O sucesso da
experiência brasileira serviu de incentivo para que os
americanos se lançassem nessa empreitada. Até então,
eles não haviam tomado essa iniciativa porque, lá, os
protocolos de pesquisas com seres humanos são muito
mais rigorosos e demorados.
Outro grupo envolvido no tratamento cirúrgico do
diabetes é o coordenado pelo cirurgião José Carlos
Pareja, chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica e
Metabólica da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). Inspirado na técnica desenvolvida pelo
médico italiano Francesco Rubino e batizado de
exclusão duodenal, o método isola o duodeno e 40% do
jejuno do processo digestivo. Com isso, o alimento
chega menos degradado ao íleo e estimula a ação das
incretinas. Até agora, Pareja operou quinze doentes.
Todos tomavam injeções de insulina e antidiabéticos
orais diariamente. Depois da cirurgia, os quinze se
livraram das picadas, mas nenhum conseguiu abandonar a
medicação por boca. O paulista Divaldo Faria de Mello,
de 46 anos, passou por essa cirurgia. Em 2003, por
causa do diabetes, ele teve de amputar dois dedos do
pé direito, machucados durante uma partida de futebol.
O excesso de glicose no sangue impediu que as feridas
se cicatrizassem. A vida de Mello pode ser dividida
entre antes e depois da cirurgia. Diz ele: "Não ter de
tomar injeção todos os dias e conseguir comer de tudo,
até feijoada, é uma bênção".
Os médicos da Unicamp pretendem testar duas outras
técnicas cirúrgicas contra o diabetes. Uma delas
associa o desvio do duodeno à redução do estômago. A
segunda prevê, além do desvio do duodeno, a retirada
de 40% da gordura visceral - o tecido adiposo que se
concentra na região abdominal e predispõe a pessoa a
doenças cardiovasculares. A idéia, aqui, é diminuir
sobremaneira a resistência à insulina, um dos fatores
que mais influenciam o desenvolvimento do diabetes
tipo 2. É provável que, num futuro não muito
longínquo, vários tipos de operação convivam no
catálogo de tratamentos disponíveis. "Sua indicação
dependerá do perfil de cada paciente", diz Pareja.
Quem primeiro levantou a hipótese de que o diabetes
tipo 2 talvez pudesse ser controlado por meio de
cirurgia foi o médico americano Walter Pories,
professor de cirurgia e bioquímica da Universidade da
Carolina do Leste, nos Estados Unidos. Num artigo
publicado em agosto de 1995 na revista Annals of
Surgery, sob o título "Quem imaginaria?", Pories
analisou a evolução, ao longo de catorze anos, de 608
obesos mórbidos submetidos à redução de estômago. Dos
pacientes operados, 165 eram portadores do diabetes
tipo 2. Graças à cirurgia, a maioria apresentou
remissão da doença. Em seu artigo, Pories chamava
atenção para o fato de que a reversão do diabetes
acontecia pouquíssimo tempo depois da operação - em
alguns casos, no dia seguinte. Ou seja, o controle da
doença acontecia independentemente da perda de peso.
Isso levou os pesquisadores a investigar o assunto.
Foi então que veio à tona a relevância, na gênese da
doença, das incretinas produzidas no intestino
delgado.
Com 200 milhões de doentes no mundo, 10 milhões deles
no Brasil, o diabetes foi descrito pela primeira vez
no século II, pelo médico e filósofo Areteus da
Capadócia. Trata-se de uma doença cujas causas não
foram inteiramente mapeadas, apesar de todos os
avanços. "As novas pesquisas mostram que a doença é
muito mais complexa do que se pensava", diz o
endocrinologista Freddy Eliaschewitz, de São Paulo.
Além do pâncreas e do intestino delgado, outros órgãos
estão envolvidos no controle das taxas de glicose no
sangue (veja quadro). Mais de uma dezena de
substâncias interfere no equilíbrio da glicemia. Até o
esqueleto participa da síntese de insulina. A equipe
liderada pelo pesquisador Gerard Karsenty, da
Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, provou em
experimentos com ratos que a osteocalcina, hormônio
produzido pelas células produtoras de osso, tem o
poder de estimular a secreção de insulina. Se for
comprovado que a osteocalcina tem função similar nos
humanos, isso poderá levar à criação de um novo
tratamento para a doença.
Alguns especialistas costumam alarmar-se com o que
seria uma epidemia de diabetes tipo 2 já em curso no
mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2025
os doentes somarão 330 milhões de pessoas. Nos Estados
Unidos, estima-se que metade das crianças negras e
hispânicas nascidas em 2000 desenvolverá a doença em
algum momento de sua vida. Não importa o mecanismo
pelo qual o distúrbio surge, o fato é que os estímulos
externos são decisivos. Em especial, a alimentação
rica em gorduras e o sedentarismo. Por esse ângulo, o
diabetes tipo 2 é uma doença culturalmente provocada.
Vencer suas causas culturais, portanto, pode ser, para
a maioria dos doentes em potencial, uma maneira menos
dolorosa do que tomar picadas diárias de insulina
sintética ou entrar na faca. |
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Fonte das Informações: |
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Área de Pesquisa da |
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Clínica de Cirurgia da Obesidade e Aparelho Digestivo |
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Galeria |
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Fernando Botero |
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